Chegar a Atins é uma pequena odisseia. Para alcançar o vilarejo no litoral do Maranhão, saí de São Paulo de avião, percorri cerca de 260 quilômetros de estrada e ainda precisei embarcar em uma lancha pelo Rio Preguiças. Quando finalmente desembarquei, já era noite, e a maré, apesar de baixa, me obrigou a molhar os pés para chegar à terra firme – zero problema, diga-se.
Aquele foi meu primeiro contato com a areia de Atins, que, nos dias seguintes, eu encontraria por toda parte, das ruas à mala de viagem.
Não consegui enxergar muito durante a travessia de lancha. Os manguezais e povoados que acompanham o rio estavam escondidos pela escuridão, mas bastava levantar a cabeça para encontrar um céu tomado por estrelas.
Atins fica na foz do Rio Preguiças, onde suas águas encontram o Oceano Atlântico. O antigo povoado de pescadores é uma das principais bases para explorar o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco em 2024.
Nos últimos anos, o vilarejo ganhou hotéis sofisticados, restaurantes caprichados e beach clubs que atraem turistas em busca de alguma badalação. Eu me hospedei no Villa Pantai Boutique Hotel e foi um acerto: conforto e hospitalidade na medida. Mas basta colocar os pés na rua para lembrar que Atins ainda conserva muito de sua simplicidade. Não há asfalto, os quadriciclos funcionam como táxis e uma caminhada curta exige esforço. É justamente essa mistura que dá charme ao lugar.
Viajei em outubro, quando a temporada das lagoas cheias já tinha chegado ao fim. Era uma preocupação antes de embarcar. Afinal, como seriam os Lençóis Maranhenses sem aquelas lagoas enormes que aparecem nas fotografias?
Nos quatro dias que passei em Atins, descobri que algumas ainda resistiam. E que, mesmo naquelas em que a água desaparece, as dunas continuam contando boa parte da história.
Protetor solar, óculos escuros, chapéu ou boné bem preso, roupas leves, roupa de banho e garrafa de água são essenciais. Leve também chinelos e sandálias confortáveis que possam molhar, tanto para os passeios quanto para os desembarques de barco.
E não subestime os pernilongos. À noite, eles aparecem em quantidade considerável, especialmente perto de áreas com vegetação. Repelente é tão importante quanto protetor solar durante o dia. Para quem pretende jantar ao ar livre, considere levar roupas que cubram braços e pernas.
A seguir, confira os passeios que curti fazer durante o mês de outubro:
Lençóis Maranhenses em outubro: o que esperar das lagoas
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ocupa uma área de aproximadamente 155 mil hectares. Apesar da aparência de deserto, a região recebe chuvas durante parte do ano, que formam lagoas de água doce entre as dunas. O nível da água costuma atingir seu ponto mais alto entre junho e setembro, período considerado o mais indicado para visitar o parque.
Em outubro, a história muda um pouco. A água evapora e infiltra na areia, deixando as lagoas mais rasas ou vazias.
Durante meu passeio pelos Lençóis, feito em um veículo 4×4, encontramos depressões entre as dunas que já não guardavam uma gota de água. Outras ainda tinham pequenas lagoas, que surgiam em meio à imensidão de areia. Não era exatamente a paisagem que eu conhecia das fotografias. E, ainda assim, era impressionante.
Nossa primeira parada foi na Lagoa Jurará, vazia de turistas. A água chegava nos joelhos e não dava para mergulhar muito fundo, mas era possível sentar na areia e aproveitar a temperatura agradável da lagoa.
A Lagoa do Gavião, por sua vez, era bem extensa, e com um volume de água um pouco maior. Diferentemente da Jurará, encontramos outros grupos de turistas aproveitando o banho, mas havia espaço de sobra para se afastar um pouco e encontrar um trecho mais tranquilo.
Nos arredores da lagoa, a empresa responsável pelo passeio montou cadeiras de madeira na areia, onde passamos um bom tempo. A equipe também serviu água e alguns petiscos.
A última parada foi a Lagoa Pininga, minha favorita. Além da água em um tom azul esverdeado, havia kitesurfistas aproveitando o vento. As velas coloridas cruzavam o céu enquanto os atletas deslizavam pela superfície e faziam saltos que pareciam desafiar a gravidade.
O esporte é um dos motivos pelos quais Atins continua recebendo visitantes depois da alta temporada dos Lençóis Maranhenses. Entre agosto e dezembro, os ventos fortes favorecem o kitesurf, atraindo brasileiros e estrangeiros.
No dia seguinte, voltamos ao parque para conhecer outros pontos. Uma das lagoas, segundo nosso guia, nem sequer tinha nome. Essa, desconhecida, tinha o tom mais cristalino dos Lençóis Maranhenses, pelo menos na minha visita.
Visitar os Lençóis em outubro exige alguma flexibilidade. Não dá para escolher uma lagoa pela fotografia e esperar encontrá-la igual. O volume de água varia de um ano para outro e, conforme a seca avança, os guias precisam adaptar os roteiros para encontrar os melhores pontos para banho.
Fiz os passeios com a Nature, que oferece roteiros privativos de meio período e dia inteiro em veículos 4×4. Os trajetos são acompanhados por guias e podem ser adaptados conforme as condições das lagoas, algo especialmente importante em outubro. Na época da minha viagem, os passeios de meio período custavam a partir de R$ 930 por veículo, para duas pessoas, enquanto os de dia inteiro saíam a partir de R$ 1.550. Os valores variam conforme o roteiro e o número de participantes.
Um pôr do sol para guardar na memória
Um dos passeios oferecidos pela Nature é o pôr do sol nas dunas. A saída acontece às 15h, com tempo para percorrer a paisagem e aproveitar as lagoas antes de encontrar um lugar para acompanhar o entardecer.
Foi uma das vistas mais bonitas que já tive na vida. À medida que o sol se aproximava do horizonte, a luz batia na areia e na água das lagoas, deixando tudo em um tom de ouro. A equipe da Nature havia preparado uma mesa com frios, pães, petiscos e sucos naturais para aproveitarmos enquanto o dia chegava ao fim.
Uma das coisas mais bonitas dos Lençóis Maranhenses é perceber que a paisagem nunca permanece igual. Ao entardecer, as sombras redesenham as curvas das dunas e, com o passar dos dias, o vento modifica seus contornos. É difícil não lembrar de Heráclito e da ideia de que ninguém entra duas vezes no mesmo rio.
O passeio termina por volta das 18h e é privativo, com valores por veículo que variam conforme o número de participantes. Custa R$ 1.450 para duas pessoas, R$ 1.690 para três ou quatro, R$ 1.860 para cinco ou seis, R$ 2.650 para sete a nove e R$ 3.080 para dez a 12 pessoas. Os petiscos e as bebidas estão inclusos no valor.
Na volta para Atins, tive uma demonstração da força do vento. Uma rajada levou meu boné embora durante o trajeto pelas dunas, sem me dar tempo de recuperá-lo. Depois de tanta areia que trouxe comigo, acabei também deixando uma pequena lembrança por lá.
Praia de Atins
Escolher Atins como base tem uma vantagem importante, especialmente em outubro. Mesmo quando as lagoas secam, a praia continua sendo uma opção de passeio, e os ventos fortes atraem praticantes de kitesurf.
A Praia de Atins fica próxima à foz do Rio Preguiças. Barcos de pescadores dividem espaço com as velas coloridas dos kitesurfistas, enquanto bares e beach clubs recebem quem prefere passar o dia à beira-mar.
Da minha hospedagem até a praia eram poucos minutos de caminhada, mas aprendi rapidamente que, em Atins, distância e esforço nem sempre são proporcionais. As ruas são cobertas por uma areia tão fofa que caminhar por elas vira um exercício para as panturrilhas. Sob o sol forte, a areia também esquenta bastante. Em alguns momentos, precisei dar pequenos pulos para não queimar os pés.
Durante a maré baixa, consegui aproveitar o banho de mar. A água estava agradável, embora o fundo de areia cedesse inesperadamente em alguns pontos, como uma areia movediça.
Vale o aviso: é importante observar as condições da maré antes de entrar. A maré determina quanto tempo a praia permanece disponível. A faixa de areia desaparece quando a água sobe, impossibilitando o banho.
Uma das opções para aproveitar a praia com mais conforto é o Bar.Co, beach club com mesas no salão, cadeiras com guarda-sol, bangalôs e sofás voltados para o mar. O espaço funciona com diferentes modalidades de consumação. Nas mesas do salão, não há valor mínimo. Já as cadeiras com guarda-sol exigiam consumação de R$ 150 durante minha visita, enquanto os bangalôs, equipados com day beds e mesinhas de apoio, tinham mínimo de R$ 500.
O cardápio traz petiscos e pratos mais elaborados. A lagosta na brasa, por exemplo, custa R$ 300. Mas é a paisagem que acaba roubando a cena. Quando estive por lá, a maré estava alta e a faixa de areia havia desaparecido frente ao bar. No mar, os kitesurfistas aproveitavam o vento, enquanto os barcos de pesca balançavam sobre a água. Conforme o sol baixava, o céu parecia estar com filtro, o amarelo tomava conta de tudo.
Vale consultar o horário de funcionamento antes de ir. Em outubro, o Bar.Co encerrava as atividades entre 17h e 18h.
O vermelho dos guarás
Outro passeio que vale incluir no roteiro é a observação dos guarás, aves de plumagem vermelha que vivem em áreas de manguezal.
Saímos no fim da tarde, acompanhados por Antônio, morador da região, em direção a um trecho da foz do Rio Preguiças onde as aves costumam se reunir para passar a noite. Perto da vegetação, o barco diminuiu a velocidade e ficamos observando as árvores.
Naquele dia, os guarás estavam tímidos. Em vez de uma grande revoada, foram chegando aos poucos. Primeiro um, depois mais alguns, até que pequenas manchas vermelhas começaram a aparecer entre os galhos. Não houve aquela cena de dezenas de pássaros cruzando o céu ao mesmo tempo, como aparece em algumas fotografias.
Eu nunca tinha visto um guará de perto e fiquei impressionada com a intensidade da cor. De longe, as aves pareciam flores vermelhas espalhadas pela vegetação.
https://viagemeturismo.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/10/20261011_172725_1.mp4Para quem quiser fazer o passeio, a Trilha Azul Turismo oferece saídas da Praia de Atins às 16h20, com retorno previsto para as 18h. O roteiro percorre os manguezais do Rio Preguiças para observar a chegada dos guarás ao entardecer. O passeio compartilhado custa R$ 170 por pessoa, enquanto a lancha privativa sai por R$ 700 para até quatro pessoas.
Onde ficar?
Durante a viagem, fiquei hospedada no Villa Pantai Boutique Hotel. Com 22 acomodações, o hotel tem uma estrutura intimista, com uma decoração que valoriza materiais naturais e o artesanato. Madeira, palha, cerâmica e móveis feitos à mão aparecem nos quartos e nas áreas comuns, combinando o rústico com o conforto.
Fiquei na suíte Lençóis de Areia, no térreo, com varanda e vista para a piscina. A cama king-size era enorme, e o quarto tinha ar-condicionado, Smart TV, cafeteira e espaço para acomodar as malas. Um detalhe de que gostei bastante foi o piso de pedras no banheiro, que proporcionava uma espécie de massagem nos pés durante o banho.
O hotel tem diferentes categorias de acomodação. Uma delas é a Lagos Maranhenses, no andar superior, que conta com piscina privativa na varanda. Há também bangalôs mais espaçosos, indicados para famílias e grupos, com ambientes que podem ser adaptados para receber hóspedes adicionais. Todos são recebidos com mimos: um chinelo e um chapéu.
Mas o que mais chama a atenção no Villa Pantai é a piscina principal, projetada para lembrar as lagoas dos Lençóis Maranhenses. Em vez do tradicional formato retangular, ela tem contornos irregulares, fundo de areia e pedras noentorno. A água é tratada e conta com sistema de circulação, e, embora não seja aquecida, as pedras absorvem o calor e ajudam a manter a temperatura agradável. Entrei à noite e a água ainda estava quentinha.
O hotel também conta com spa (massagens a partir de R$ 300), academia e loja de artesanato.
O restaurante Companhia da Lagosta tem um cardápio que valoriza frutos do mar e ingredientes regionais. Um dos pratos de que mais gostei foi o Serra na Canoa (R$ 288), peixe-serra assado na telha e servido sobre uma folha de bananeira, acompanhado de arroz de alho e farofa de banana.
Outra delícia foi o Camarão Maré Alta (R$ 296), preparado com creme de queijos e servido dentro de um abacaxi. Ambos os pratos são feitos para compartilhar, e servem duas pessoas.
Fiz boa parte das refeições no próprio hotel e, mesmo depois de vários dias experimentando o cardápio, ainda havia pratos que gostaria de provar. O café da manhã está incluso na diária e é servido à la carte, com destaque para os crepes. Também preciso fazer uma menção especial aos sucos naturais, alguns dos melhores que já provei.
Em outubro, as diárias no Villa Pantai Boutique Hotel Atins partem de R$ 1.600. Os valores variam conforme a acomodação e o período da viagem. Consulte as tarifas e faça sua reserva pelo Booking.
Onde comer?
Como já mencionei, fiz boa parte das refeições no hotel. Mas um dos almoços mais interessantes da viagem começou com uma pequena travessia de barco.
O restaurante Maria Farinha fica na Ponta da Brasília, um banco de areia próximo à Praia de Atins. O restaurante leva o nome de um pequeno caranguejo de coloração clara, conhecido pela rapidez com que corre pela areia das praias.
Para chegar ao restaurante, é preciso embarcar em uma das embarcações que fazem a travessia a partir da Praia de Atins. O percurso leva menos de dez minutos.
Comandado pela chef Carol Vereza, o restaurante tem estrutura rústica e vista para o mar. A maré faz parte da rotina do lugar. Dependendo do nível da água, a estrutura precisa ser desmontada e reorganizada.
O cardápio acompanha a disponibilidade de produtos frescos e muda de um dia para o outro. Há duas opções: um menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa, por R$ 190, e uma versão apenas com o grelhado e seus acompanhamentos, por R$ 160.
Escolhi o menu completo. Para começar, veio um ceviche de pescada amarela. O grelhado era um robalo acompanhado de farofa de cebola, cenoura glaceada com gengibre, feijão-carioca, vinagrete de melancia e batatas na manteiga de ervas. De sobremesa, abacaxi flambado.
O vinagrete de melancia foi uma doce surpresa. A fruta trouxe frescor ao peixe e aos acompanhamentos. Entre uma garfada e outra, os kitesurfistas disputavam a atenção com o prato.
Para quem pretende conhecer o Maria Farinha, vale fazer reserva com antecedência. Fora da alta temporada, o funcionamento varia conforme a demanda, e a travessia de barco precisa ser combinada. Durante minha visita, o transporte custava R$ 20 por pessoa.
Além dos restaurantes, vale conhecer o Gelato Charme Atins, na Vila Charme. Fui até lá em uma das noites, depois de uma caminhada pela areia fofa do centrinho que me deixou sem fôlego. O sorvete caiu muito bem depois do esforço. A sorveteria oferece serve artesanais, como o “Atins”, de limão com gengibre. Escolhi o chocolate belga, que estava gostoso e custou R$ 28 por uma bola no copinho.
Outra opção que ficou de fora do meu roteiro foi o Restaurante da Luzia, no Canto do Atins, uma região mais afastada do centro, acessível de 4×4 ou quadriciclo. O camarão grelhado é a especialidade da casa e foi tão recomendado durante a viagem que fiquei com vontade de experimentar. Vai ficar para a próxima.
Como chegar a Atins
Chegar a Atins exige planejamento, já que o vilarejo não tem acesso por estradas convencionais. O ponto de partida costuma ser o Aeroporto Internacional de São Luís, na capital maranhense. De lá, são cerca de 260 quilômetros de estrada até Barreirinhas, um trajeto de aproximadamente quatro horas.
O percurso pode ser feito de ônibus, van compartilhada ou transfer privativo. A Maranhãe Tour, por exemplo, oferece vans com saídas de São Luís às 4h, 7h30, 12h30 e 17h, por R$ 100 por pessoa. O meu transfer foi feito com a SPHC Traslado e Turismo (R$ 2.400 pelo transfer privativo de ida e volta para um grupo de seis pessoas).
De Barreirinhas até Atins, a viagem continua de lancha pelo Rio Preguiças, em uma travessia que leva cerca de 1h30. Também é possível chegar ao vilarejo por terra, em veículos 4×4 que percorrem trilhas de areia.
Há diferentes empresas que realizam o trajeto com lanchas compartilhadas. A Trilha Azul Turismo cobra R$ 100 por pessoa, com saídas de Barreirinhas às 12h30 e 14h30 e retornos de Atins às 7h, 7h30 e 14h. Já a Maranhãe Tour anuncia passagens por R$ 120, com saídas de Barreirinhas às 12h e 16h e retornos às 7h e 14h. Para quem prefere mais flexibilidade, as empresas também operam lanchas privativas, com horários combinados e preços que variam conforme a embarcação e o número de passageiros.
Na minha viagem, a travessia foi organizada com o barqueiro Gabriel, em uma lancha privativa. Vale ficar atento às condições da maré. Durante o desembarque você provavelmente vai molhar os pés. Por isso, é bom deixar chinelos ou sandálias à mão.
Vale confirmar as saídas antes de reservar, especialmente para conciliar a lancha com o horário do voo de volta.
Como circular em Atins
As ruas de areia tornam até os trajetos mais curtos um pouco trabalhosos. Caminhar é uma opção para quem está hospedado perto da praia ou do centrinho, mas, dependendo da distância, vale recorrer aos quadriciclos que funcionam como táxis no vilarejo.
Os preços dos chamados quadri-táxis, o Uber local, variam conforme o percurso, e uma maneira de conseguir o contato dos motoristas é pedir indicações na recepção do hotel ou nos restaurantes. Vale combinar o valor e o horário com antecedência, especialmente para os deslocamentos à noite.
Para quem tem disposição, compensa reservar uma noite para caminhar pelo centrinho. Sem sol e com a areia mais fresca, o passeio é bem agradável. Não há tantas atrações, mas o movimento aumenta à noite, com restaurantes e pequenos comércios. É também uma boa maneira de conhecer a rotina do vilarejo, para além dos passeios pelas dunas e da praia.
Leia o guia completo dos Lençóis Maranhenses
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